Mais de dois meses... Foi o tempo que deixei a minha baiúcazinha abandonada...
Foi muito tempo. Ou apenas o suficiente, parece-me melhor assim.
Mudei de emprego, mudei de hábitos, mudei de café, mudei de perspectiva. Mas no fundo não mudei nada.
Já não ando de metro, mas falo com mais pessoas. Irrito-me mais, rio mais.
Já não trabalho num escritório, estou num open space. O barulho chega a impedir-me de me ouvir a mim própria.
Já não vou almoçar ao café do outro lado da rua, este fica numa rua mais acima. A Fátima e a Rosário foram substituídas pela Joana.
Já não vejo a Mafalda nem o Bernardo, falo todos os dias com a Ana e o Luís. Normalmente ao pé da máquina do café, que já não é uma DeLonghi e serve o pior café do mundo.
Mais de dois meses... Foi o tempo que precisei para arrumar tudo por aqui.
Longas ausências neste blog e em mim própria. Longos momentos de carinho, não neste blog, mas em mim própria. Desconstruí para voltar a construir. Questionei para voltar a acreditar.
Testo-me diariamente com um afinco cansativo mas perseverante. Ponho-me à prova. Deixei de ter medo de lutar ou vergonha de fugir.
Não raramente passa na minha cabeça a oração de que gosto tanto, "Força para lutar, resignação para aceitar e Sabedoria para distinguir".
Luto quando tem de ser, resigno-me pouco porque não faz o meu género, ainda ando à procura de ser sábia, mas é um processo.
Conheci seres humanos excepcionais. Conheci outros que me fizeram perceber que os primeiros são mesmo excepcionais. Ganhei um verdadeiro amigo e alguém que não posso sequer encerrar em definições.
Aprendi coisas que jamais me passaram pela cabeça. Aprendi a não dizer não, sorrir o tempo todo, usar as palavras certas para as ocasiões certas. E quando deixei de encerrar as pessoas em definições, aprendi o silêncio. Meaningful silences. Será esta a minha próxima tatuagem. E será a última.
Depois das infinitudes gritadas aos quatro ventos nas minhas costas, das celebrações dos arcanjos, da defesa da paz, e da constante lembrança dos lados escuros dos seres humanos, fica o selo. O lacre. O silêncio.
Vi a morte de um ente querido, vi-a por dentro. De mim. Chorei por mim e pela saudade que sei que vou ter. Chorei pelo que foi e já não volta e pelo que nunca foi e já não será. Voltei a morte do avesso e fi-la vida. Numa tentativa comum de tirar sempre sumo doce dos limões amargos, percebi que o tempo que cá estamos é só o suficiente para sermos felizes. E que dois meses não são nada, e trinta anos muito pouco.
Afinal nestes dois meses quase não choveu e nestes trinta anos pouco conheci.
Aqui fica um recomeço, que começa num fim que já se previa e caminha para onde eu o levar, ou para onde os silêncios me levarem a mim.
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