Hoje assisti a uma cena que já não se vê.
Estava eu a esplanar com a minha mãe quando a nossa atenção foi forçada a focar-se numa confusão civilizacional. O típico carro estacionado que bloqueia a saída de outro carro.
Um incauto cidadão estava a tomar o seu café e, vendo-se forçado a mover o seu bólide para deixar sair quem o desejava fazer, aproveitou para estacionar no lugar que ia vagar. Aparece então um terceiro cidadão que vendo o lugar, quis ficar com ele também. Não fosse isto o suficiente para "armar a barraca" que se previa, entra ainda em cena um jovem no seu modesto Opel Corsa, afoito a ficar com a vaga.
Isto soma, após todas as movimentações de quem saiu, três cidadãos e um único espaço, que na verdade se veio a ver que eram dois. Ou seja, dois lugares, três carros.
Para resumir a dança, o cidadão que primeiro quis estacionar não o pôde fazer porque o "terceiro cidadão" lhe impediu a manobra, estacionando num dos lugares. Aborrecido o "incauto" volta para onde estava, decidido a impedir-lhe a saída e bloqueando a restante vaga ao "Corsa".
A história acaba aqui. Indignei-me, barafustei. Se o gajo queria deixar o carro mal estacionado na mesma, pelo menos deixava estacionar o miúdo! Mas é Sábado e, já se sabe, não se perde tempo aos Sábados com divagações civilizacionais.
Mas nada disto me teria merecido tempo de antena neste espaço, não fosse a atitude final do "incauto". À saída, passou pela mesa do jovem. Dirigiu-se-lhe com educação e humildade e pediu desculpa pelo sucedido. Assumiu-se levado pela "vingança de tapar o outro", apertou-lhe a mão e entrou no carro.
Estive ali ainda tempo suficiente para saber que o senhor "incauto" pagou não só o café do "Corsa" como toda a despesa da mesa que o dito partilhava com mais três pessoas. Mas não tinha feito alarde disso.
Aqui ficam os meus respeitos pelo "incauto". Quando um senhor que tem nitidamente mais de 60 anos, pede humildemente desculpa a um miúdo que não tem mais de 20, dá-lhe uma lição de vida. E quando sai sem anunciar que lhe pagou a despesa, dá outra. Não só áquela miudagem toda, mas a mim também.
Impressionou-me a educação, a humildade, o respeito e a generosidade. Impressionou, mas não sei se deveria impressionar...
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